4

Acredito que já estávamos em outubro quando bombas pararam de cair, o que tirou dos meus pais o constate medo de ficarmos desabrigados, ou pior: de perdermos a vida. Mas outra questão veio à tona.
O plano de meu pai de abandonar o país havia ido por água abaixo, embora toda sua especulação de que Hitler invadiria a Polônia estivesse certa. Agora ele estava desempregado, com uma família para sustentar numa cidade onde não conhecia nada. Pelos anos seguintes, o dinheiro que Aaron havia guardado para pagar nossa fuga acabou servindo como uma fonte monetária finita para sobrevivermos. Tínhamos que usar o mínimo possível desta poupança até que Aaron conseguisse se estabilizar em um emprego.
Como se não bastasse todos esses receios, bem como a insegurança, uma coisa que jamais fora motivo de preocupação, pelo menos para meu irmão e eu, começou a nos perturbar. Ora, Varsóvia agora era dos alemães; eles que ditavam as novas regras, as novas imposições, e nossa origem passou a ser mais importante do que nossa dignidade.
Benjamin e eu sabíamos que éramos judeus, e na verdade não dávamos muita importância a isso. Não éramos praticantes, portanto nosso estilo de vida se assemelhava bastante com o dos nossos amigos de outras religiões. Embora tivéssemos descendência judaica, continuávamos sendo humanos; mas isso não estava claro para os nazistas.
Com certa frequência, víamos manchetes indignantes nos jornais. De semana a semana, os judeus estavam proibidos de realizar alguma tarefa pública. Não demorou muito para que fosse proibido visitar certos lugares, como praças, parques. Não tardou a entrar em vigor, também, a lei que nos proibia de utilizar transporte público, tal como trens e bondes. Em novembro daquele ano, judeus que fossem maiores de doze anos, ao saírem nas ruas, eram obrigados a ter costurado em sua vestimenta a estrela de Davi, a fim de uma imediata identificação racial. Tal estrela tinha um padrão de cor e tamanho, e deveria ser comprada do Conselho Judaico, órgão criado pelos nazistas que tratava de assuntos como este.
Algo estranho começou a acontecer. Mesmo após os netos de Kamilia e Olek terem partido, Benjamin e eu continuamos frequentes em sua casa, assim como algumas outras crianças moradoras daquela rua. Eles adoravam nos receber, e Olek sempre tinha algo novo para contar.
Porém, passado alguns meses, após o anúncio de todas aquelas diretrizes, as pessoas começaram a olhar diferente para nossa família. Nossos vizinhos idosos tratavam as crianças não judias melhor do que nós. Kamilia preparava doces e bolos que só alguns poderiam comer, enquanto eu e meu irmão apenas olhávamos, impedidos de saciar nossa vontade.
Adele ficou irada com tal fato, e no mesmo dia foi “ter uma conversa” com eles. Ficamos em casa, esperando-a e ouvindo através da parede a briga feia que estava acontecendo. Após algumas horas, Adele abriu a porta da sala furiosa.
— Crianças, vocês nunca mais vão voltar naquela casa de velhos desgraçados.

Nós estávamos presos em Varsóvia, não tendo para onde ir. Os meios de transporte não nos eram permitidos mais. Mas se bem que, caso quiséssemos utilizá-los, não tínhamos qualquer destino. No decorrer daquele próximo ano que ficamos naquela casa apertada, provaríamos de uma realidade que jamais havíamos presenciado.
Assim como tudo estava saindo do que meus pais haviam planejado, as pessoas que antes conhecíamos (como nossos vizinhos) agora fingiam que nós não existíamos. Era como se, na verdade, nunca houvéssemos existido.
Meu irmão e eu já tínhamos sete anos e meio, e com certa frequência saíamos de casa para dar uma volta. Os amigos que fizemos em Varsóvia fingiam não nos conhecer mais, portanto íamos apenas nós dois em nossos passeios. A parte boa de sermos novos era que não precisávamos usar a estrela de Davi em nossa roupa, obrigatória apenas para maiores de doze anos, então ninguém implicaria conosco caso quiséssemos fazer algo proibido a judeus. O fato de que não aparentávamos ser judeus dava-nos mais asas. Nossos olhos claros ajudar-nos-iam a passar por cidadãos poloneses “puros” facilmente. Divertíamo-nos dando voltas nos parques e sentando em seus bancos. Quando tínhamos dinheiro, andávamos de bonde pela cidade, sem que ninguém nos impedisse. Claro que só fazíamos tais coisas quando não havia ninguém conhecido por perto; caso contrário, corríamos risco de sermos denunciados.
Enquanto achávamos meios de nos divertir, nosso pai buscava condições de sobrevivência. Não sabíamos por quanto tempo sua reserva de dinheiro, que outrora fora destinada a pagar o contrabandista, duraria. Ele precisava de um emprego, e rápido. Sua sorte era que tinha uma boa formação acadêmica, e poderia trabalhar com algo relacionado à literatura.
Mas não foi o que aconteceu. Ninguém queria contratar um judeu como professor de alguma coisa. Ele também tentou vários outros empregos, sem que o aceitassem. Meu pai chegou a conseguir alguns trabalhos, mas logo era demitido, pois estava “tomando o lugar de um não judeu” onde estava trabalhando.
Meus pais se trancavam no banheiro para discutirem, enquanto Benjamin e eu ouvíamos do lado de fora. Acredito que eles tentavam evitar brigar na frente dos filhos, mas de nada adiantava, pois sempre encostávamos nossos ouvidos na porta para não perder nenhum detalhe ou argumento das discussões. Elas, em sua maioria, eram sobre os mesmo assuntos: ou minha mãe que estava “gastando” muitos ingredientes no preparo dos alimentos, colocando muitos legumes na sopa, ou meu pai que não estava conseguindo arranjar um emprego que nos sustentasse, pois não era possível saber até quando usaríamos sua reserva de dinheiro, que uma hora ou outra acabaria. Adivinhem: minha mãe sempre ganhava as discussões.
E isso refletia em nosso dia a dia. Em nosso aniversário de sete anos, não me recordo de ter ganhado algum presente, nem sequer de ter tido uma festinha ou algo do tipo. Aqueles anos foram difíceis, com sopas cada vez mais ralas e roupas progressivamente mais curtas.
Por mais que Benjamin e eu brincássemos, era notável a falta que outras crianças estavam fazendo em nossa vida. Muitas das brincadeiras de rua precisavam de mais do que apenas dois integrantes para funcionarem, e brincar com os brinquedos que tínhamos em casa havia se tornado monótono. Já éramos crianças de quase oito anos, e o que tínhamos para nos divertir era adequado a crianças de seis.

Estávamos numa típica tarde de outubro de 1940. Meu irmão e eu estávamos entediados, enquanto minha mãe tricotava algumas blusas para o inverno que se aproximava. Meu pai chegou a casa nesse momento, trazendo algumas cartas.
— Oi, querida. Oi, crianças.
Fizemos o ritual de sempre. Porém, ao pularmos em seu colo, ele acabou deixando as cartas que trazia consigo caírem no chão. Adele deixou seus cordões de lado e levantou de onde estava sentada. Foi ao nosso encontro, e recolheu as cartas caídas.
Meu irmão e eu pulamos de seu colo.
Ela bateu o olho no primeiro envelope e logo o abriu. Com um ar sério, leu o papel em alguns instantes, e levantou os olhos para Aaron.
— Querido, tudo bem, vamos dar um jeito. — E abraçou meu pai.
— Mas a demissão não é tudo, querida. Veja as outras cartas.
Adele passou uma por uma, com a mesma expressão séria no rosto. Até que um envelope um pouco diferente dos demais lhe prendeu a atenção.
— Uma carta do governo?
— Sim. Leia.
Ela começou a ler, baixo.
— Informamos que... Mudar... Conjunto Habitacional Judaico... — Seus olhares se encontraram. — Aaron, isso é sério?!
— Nosso vizinho da frente recebeu a mesma carta. E ele também é judeu.
— Mas então... Estão realmente nos obrigando a mudar daqui? Para esse Conjunto Habitacional Judaico?
— E se não nos mudarmos, guardas virão nos buscar.
Meu irmão e eu trocamos um olhar de dúvida.
— Vamos mudar de novo? — Disse ele.
— Para um lugar melhor agora, né? — Complementei.
— Vão se preparando, Benjamin e Caleb. Daqui cinco dias teremos que partir para esse endereço aqui. — E meu pai mostrou o papel com o nome da rua, o número e o apartamento do que seria nosso novo lar.
Benjamin e eu conhecíamos o endereço, já havíamos andando pelos seus arredores algumas vezes.
— Bom — comentou meu irmão —, pelo menos vamos sair dessa casa e respirar uns ares novos.
Diminuindo seu tom de voz de modo que só eu ouvisse, complementou: “Porque eu não aguento mais ficar aqui”.
E de fato eu também não. Não nos havia restado muitas coisas divertidas para fazer: não tínhamos mais dinheiro para andar de bonde, e caminhar sem rumo pelas ruas não tinha mais tanta graça. Nossa última opção, ficar em casa, era entediante para qualquer um, inclusive para Adele, que tinha em seu tricô uma fuga da realidade.
— Caleb — disse meu irmão —, como será que é esse lugar, essa casa, quer dizer, será que é pior que essa?
— Ah, Ben, sei lá. A última mudança que fizemos não foi muito boa não.
— É, foi chata. Nossa casa antes era bem maior que essa aqui.
— Sim. E dessa vez é estranho, a gente está sendo obrigado a mudar daqui...
— Vai ver eles querem judeu longe. — interrompeu.
— Acho que é isso mesmo. — Suspirei. — Mas nosso pai vai dar um jeito de tirar a gente dessa.
— Papai?! — Disse em voz baixa, apenas para mim. — Ele tentou levar a gente pra esse tal de Estados Unidos, e deu tudo errado. Agora a gente tem que se virar pra conseguir dormir todo mundo na mesma cama, se virar pra dividir a comida, se virar pra brincar, pra tudo!
— Você é ingrato, hein?
— É a verdade! Vai dizer que não? Mas... — Ele me olhou com seu semblante de preocupação. — De qualquer jeito, a gente vai continuar junto, né, eu, você, a mãe, o pai...
Antes que eu pudesse responder algo, fomos interrompidos por nossa mãe, que estava na cozinha.
— Meninos, venham comer!
Levantamos no mesmo instante, estávamos famintos.
Não conversamos mais sobre nossa nova mudança. Eu sabia que meu pai estava tentando fazer de tudo, porém uma parte de mim queria concordar com o que Benjamin dissera. Era verdade que nossa situação estava indo de mal a pior.
Mas meu otimismo e esperança fizeram-me acreditar que estávamos indo para um lugar melhor. Naquele mesmo dia começamos a arrumação de nossas coisas.
Na verdade não sabíamos o que esperar, nem o que o destino estava nos preparando nessa nova casa; nessa nova vida.

Por: Vítor Rodriguez Perencine


3

Desembarcamos na grande estação de trem de Varsóvia. Talvez meu senso de grandezas ainda não estivesse muito apurado, por ser uma criança de seis anos, porém eu parecia estar na maior estação de trem que já havia visto. Nunca antes havia visitado aquela cidade; tudo em Varsóvia parecia maior. Benjamin e eu estávamos andando a frente de nossos pais, pois andar lado a lado não seria conveniente se considerarmos o tanto de gente que passava. Ficamos olhando para cima, distraidamente, apenas observando o tamanho de tudo, que até então era novidade.
Tudo estava indo bem, até a hora em que virei para trás para comentar com meu pai o que estava achando daquilo. Mas atrás de nós não havia mais ninguém conhecido. Cutuquei Benjamin.
— Ben, cadê o pai e a mãe?!
Meu irmão se virou e também percebeu que estávamos perdidos. Perdidos no maior lugar onde até então já estivemos.
— Caleb, e agora?!
Ficamos olhando ao redor, tentando encontrar o olhar deles, por minutos; inclusive gritamos os seus nomes. Até que uma senhora nos interrompeu.
— Com licença crianças — disse ela —, vocês estão perdidos? Oh, são gêmeos!
Minha mãe me disse para nunca falar com estranhos. Porém, naquela hora, não houve como não o fazer.
— Sim — disse eu, num leve desespero. — Acabamos de nos perder de nossos pais!
— A senhora pode nos ajudar? — perguntou Benjamin.
— Venham comigo, queridos. — Falou a senhora, com sua voz docilmente gentil. — Oh, não façam essa cara de choro, logo vão encontrá-los.
E não tivemos opção senão seguir aquela moça simpática que estava tentando nos ajudar. Ela nos levou até o que deveria ser uma central, e uma outra mulher de olhos azuis anunciou nossos nomes nos microfones da estação. A senhora gentil ficou conosco, nos cuidando; até que, em menos de cinco minutos, nossos pais apareceram.
— Crianças! — Disse minha mãe, num tom aliviado que foi sendo substituído por certa raiva. — Onde vocês foram? Num momento vocês estavam em nossa frente, e no outro haviam sumido!
— Mãe, aqui é muito grande...
— É... A gente estava olhando pra cima... — Falei, tentando retirar nossa culpa.
— Oh, fico feliz que encontraram seus pais, crianças. — Disse a encantadora senhora. — Boa tarde a vocês.
Meus pais então notaram sua presença.
— Olá — falou Aaron. — Obrigado por ter ajudado. Qual seu nome?
— Sou Aleksandra Wastowski. E com quem tenho o prazer de falar?
— Somos a família Wensel. Sou Aaron, e esta é minha esposa Adele. E estes são meus filhos, Benjamin e Caleb.
— Ah, sim. Tenham um bom dia!
Meu pai não perdeu a oportunidade para pedir informações. Sacou o mapa de seu bolso e começou a falar.
— A propósito, senhora Wastowski, a senhora sabe como chegamos nesta rua aqui?
E então ela nos ajudou a localizar o lugar onde ficaríamos temporariamente em Varsóvia. Ela era uma moradora da cidade, portanto conhecia bem a região. Nós nos despedimos, e, graças àquela intimidade inicial, Aleksandra nos deixou com um leve sentimento de vazio.
Antes que pudesse dizer algo, Aaron já se adiantou.
— Benjamin, Caleb, num instante estavam em nossa frente, e no outro haviam sumido! Vocês não podem nos dar outro susto assim!
Saímos da estação e começamos a andar. Meu pai nos alertou que a caminhada seria um pouco longa, e para nós, crianças, realmente foi. Depois de quase uma hora andando, chegamos a nosso destino, uma pequena residência de tijolos expostos com muito mato crescendo ao redor. A fachada não era algo chamativo, muito menos bem cuidado. Uma pequena cerca de ferro, quase escondida pela vegetação, dividia a calçada pública do terreno. A primeira impressão que tive daquela casa era que ela era mal assombrada.
Adentramos no terreno, andando sobre o que supúnhamos ser o caminho de cimento que nos levaria à entrada. Meu pai abriu a porta de nossa nova casa, e um cheiro de falta de ventilação nos tomou as narinas. As paredes internas eram nuas, e apenas um empilhado de fileiras de blocos separava aquela casa do mundo ao seu redor. A sala de estar também servia de quarto, e na cozinha havia uma porta que provavelmente era a que dava ao banheiro.
Diante a situação, Aaron começou a falar, meio que gaguejando.
— Crianças, Adele, tudo bem, quer dizer, amanhã vou encontrar o rapaz que poderá nos ajudar a sair do país...
— Pois que ache logo — falou minha mãe. — Esse lugar cheira a mofo.
— A outra casa é melhor — disse eu.
— Eu sei, eu sei. Mas fiquem tranquilos, logo estaremos embarcando para os Estados Unidos. Por hora, vamos desfazer as malas.
E o lugar era realmente insalubre. Ainda bem que estávamos numa época não muito fria do ano, pois na casa não havia sistema de calefação. Durante as noites seguintes, meu pai teve que matar alguns ratos que eventualmente apareciam à noite nos armários e que comiam nosso cereal.

Benjamin e eu queríamos explorar as ruas de nossa vizinhança, mas minha mãe não permitiu. Tínhamos apenas seis anos, e a cidade grande era muito diferente do que estávamos habituados em Białystok. Lá, podíamos sair para brincar com nossos vizinhos, cujos pais os meus conheciam também. Nós fazíamos de tudo na rua de nossa casa. Ela não era pavimentada, e em dias de chuva nos divertíamos com a lama. Fazíamos castelos, buracos no chão; uma vez enterramos meu irmão, deixando apenas sua cabeça de fora. Voltamos para casa, e Benjamin estava coberto de lama; minha mãe ficou furiosa diante do fato de que as partes brancas de sua vestimenta jamais voltariam a ser o que eram.
Naquele primeiro dia na nova cidade, minha mãe resolveu sair de casa para conhecer os arredores e os  vizinhos, e nós dois fomos junto. Nossa casa ficava na periferia; portanto, para chegar ao centro da cidade, fizemos uma boa caminhada. O centro ficava do outro lado do rio Vístula. Mas valeu a pena, adoramos o lugar. Era movimentado, cheio de edifícios que as pessoas entravam e saíam. A área residencial de lá também era charmosa: contava com pequenos prédios de alguns andares, bem como calçadas largas. Para nós, crianças, tudo era uma incrível novidade. Uma mudança para uma cidade daquele tamanho significava muito.
Conhecemos a senhora Kamilia e seu marido Olek, um casal de idosos que morava na casa ao lado da nossa. Kamilia nos disse que seus netos passariam alguns dias em sua casa, e que eles tinham a mesma idade que meu irmão e eu. Ela nos convidou para passar uma tarde em seu quintal para brincarmos com eles, assim que chegassem.
Também fizemos contato com Alojzy e Magda, vizinhos de frente. Era um casal que tinha dois filhos, alguns anos mais velhos do que nós dois. Sua casa era espaçosa, possuía um ambiente muito agradável.
Minha mãe, Benjamin e eu voltamos para casa, com muitas novidades para compartilhar com meu pai na hora que ele chegasse. Ele estava fora de casa, procurando pelo então sujeito que nos forneceria meios de fugir do país.
Adele tinha acabado de cozinhar a janta quando meu pai adentrou em casa. Ficamos felizes em vê-lo; todavia, ele parecia desapontado.
— Aaron! — Adele foi ao seu encontro, Benjamin e eu também.
— Benjamin! Caleb! Oi crianças, oi querida!
Como de costume, nós dois pulamos em seu colo.
— Querido, como foi hoje? O que houve?
— Pois bem. Não consegui achar o tal homem. Parece que ninguém o conhece por aqui.
— E se esse sujeito estiver na cadeia por causa dos contrabandos? Aaron, isso é possível!
— Fique tranquila, ele tem seus jeitos. Tenho quase certeza de que ele está em algum lugar por aí. Amanhã vou continuar a busca.
E foi o que fez. Mesmo dormindo em uma cama apertada, numa casa que exalava um terrível odor de mofo, e tendo que ocasionalmente assassinar roedores, meu pai continuou forte e determinado em sua tarefa.
Porém, o dia seguinte também não foi muito promissor. Nem o próximo.
Até que, no fim de agosto, Aaron conseguiu algumas informações sobre o paradeiro do contrabandista, informações suficientes para descobrir onde morava. Entretanto, numa manhã de Setembro, um grande incidente aconteceu.
Estávamos tomando café da manhã, e meu pai ouvia o rádio. Benjamin e eu estávamos já nos preparando para ir à casa de Kamilia, pois seus netos haviam chegado na noite anterior e iríamos conhecê-los naquele dia. Estávamos fazendo planos, porém meu pai pediu para ficarmos em silêncio. O locutor do rádio parecia dizer algo importante. Eu não entendia muito bem o que o som que saía queria dizer, mas sei que nunca havia visto meu pai tão preocupado ao ouvir as notícias.
— Adele...
Minha mãe compreendeu sua expressão.
— Não...
— Sim, está acontecendo.
— Crianças, por que não vão brincar na sala?!
Por imposição de nossa mãe, mudamos de cômodo.
— Que estranho nosso pai hoje, não é? — Perguntou Benjamin, enquanto procurava pelo seu boneco de super-herói favorito.
— Eu acho que tem alguma coisa diferente acontecendo.
A partir daí, não sei o que os dois conversaram, pois Benjamin e eu começamos a fazer o que sabíamos de melhor: brincar. Só recordo de, não muitos minutos depois de termos iniciado a brincadeira, ter ouvido uma sirene tocando lá fora. Após alguns minutos de tensão, uma bomba explodiu em algum lugar próximo de nossa casa.
Todos nós estremecemos. Meus pais tentaram manter meu irmão e eu seguros, embaixo de seus braços. Não havia muito que fazer. E outra bomba havia explodido; e outra, e outra; uma chuva delas. A invasão nazista chegara a Varsóvia. Olhei para Benjamin, e pude ver que, assim como eu, meu irmão estava com muito medo, coisa rara de ver em seus olhos.
Acabamos não saindo de casa naquele dia. Muito menos no outro. Nem nos seguintes. Havia tréguas, mas os bombardeios continuaram por vários dias. Meu pai também não se atrevia a sair de casa, o risco de ser morto por uma bomba repentina era grande.  Passamos a viver temerosos, esperando pelo próximo susto, rezando para que nossa casa não fosse explodida. Passado o ataque inicial, nos habituamos ao significado daquela sirene. O toque de recolher acontecia alguns minutos antes de cada bombardeio, e todos residentes das proximidades, inclusive nós, nos reuníamos no porão da casa de alguém cuja capacidade de pessoas era alta. Geralmente íamos para a casa à frente, Alojzy e Magda, cujo subsolo cabia várias pessoas. Seguros em seu interior, ouvíamos as bombas explodindo na superfície, todos na expectativa de sua casa não ter sido a atingida.
Nós tivemos sorte de nossa residência ter continuado intacta.  A cada ataque, a insegurança crescia mais, e não era difícil encontrar pessoas que passaram a ser sem teto após bombas explodirem seus lares.
Conhecemos os netos da senhora Kamilia em um dia de bombardeio, no mesmo porão que sempre íamos. Eram três garotos e duas garotas, todos entre seis e oito anos. Um ótimo passa tempo era ouvir as histórias do velho Olek, veterano de guerra que sempre tinha o que contar. Ele reunia as crianças de todas as idades e assumia o posto de contador de histórias. Ora contava uma história engraçada, ora um conto de botar medo, que ele jurava ter acontecido enquanto morava numa fazenda do interior. As histórias teriam sido muito mais divertidas se não estivessem sendo contadas enquanto bombas assolavam a cidade de Varsóvia, mas aqueles momentos, embora fossem de tensão, acabaram se tornando um motivo para sairmos de casa e da realidade e viajar no que Olek dizia. Essa era a parte boa da época dos bombardeios. Repassei aos meus filhos suas histórias.
Era visível que meu pai não dormia bem há várias noites; haviam olheiras postadas abaixo de seus olhos claros, que cresciam a cada dia que passava. Mas ele não estava derrotado. No meio daquele mês de setembro, Aaron resolveu sair as ruas em sua infindável busca por aquele contrabandista, mesmo com os evidentes riscos de um bombardeio desavisado tirar-lhe a vida.
Minha mãe ficou apreensiva o dia todo. A corajosa senhora Wensel apresentou sua rara expressão de preocupação, a qual só vira tomar conta de seu rosto em pouquíssimas ocasiões. Sua feição apenas mudou quando meu pai abriu a porta, adentrando em casa em tom fúnebre.
— Aaron! Você está péssimo, o que aconteceu? O tal rapaz cobra um preço por pessoa maior do que a gente estava imaginando?
— Pior que isso. — Meu pai suspirou. — Durante os bombardeios, bem, ele não se atentou ao toque de recolher, e ficou em pedaços... Junto com a casa dele.
— Oh, não...
Benjamin tomou a palavra.
— Então não vamos mais pra outro país?
— Ben, não foi isso o que quis dizer... Ora, por que vocês dois não voltam a brincar?!
— Tá bom, pai — respondeu meu irmão.
Então voltamos para o que já estávamos fazendo. Cada um com seu brinquedo de super-herói, inventando uma história para fugir da realidade que nos cercava. Nossos pais foram para a cozinha, a fim de terem uma conversa particular. Não havia como espioná-los; eles nos veriam caso tentássemos nos aproximar. Desistindo dessa ideia, voltamos a nos divertir, inocentes perante a situação.
A verdade é que, sem o contrabandista para nos tirar do país, não havia como sair do lugar onde estávamos. A casa que ficaríamos apenas temporariamente houve de se transformar em nossa residência fixa. Éramos apenas mais uma família ali, dentre tantas outras que estavam prestes a ceder na armadilha do Holocausto.
A verdade é que estávamos sem saída. A esperança de fugir da Polônia caiu por terra, bem como as bombas, que insistiam em nos atormentar.
Nosso cenário havia mudado. A luta agora não era mais pelas fugas, e sim pela sobrevivência.

Por: Vítor Rodriguez Perencine



2


Eu e Benjamin ganhamos alguns brinquedos de aniversário. Nossa família estava ficando meio que sem dinheiro, portanto eles eram dos mais simples. 
A primavera de 1938 já estava quase chegando, trazendo cada vez mais tensão dentro de nossa casa. Meus pais discutiam quase que uma vez por semana, coisa que antes não estavam habituados a fazer.
Um dia, não sei dizer exatamente qual, estávamos travando uma luta com nossos bonecos de super-heróis, como sempre fazíamos; porém algo interrompeu nossa brincadeira. Do nosso quarto, que não era muito longe do quarto dos nossos pais, foi possível ouvir uma nova discussão. Benjamin e eu não tardamos em trocar um olhar curioso, o que nos fez ir até a porta do quarto dos nossos pais e tentar ouvir o que estava sendo dito.
Benjamin aproximou o ouvido do canto da porta, enquanto eu olhava pela fechadura. Eu não consegui capturar muitas cenas do interior do quarto, mas pude perceber que minha mãe estava sentada na cama e meu pai caminhava ao redor dela.
— Adele, Hitler está levando seu povo a odiar qualquer um que não seja alemão. Nós, judeus poloneses, estamos inclusos nessa! Olha o que ele está fazendo lá na Alemanha, leia esse jornal!
— Isso mesmo, ele está fazendo essas coisas na Alemanha! Aaron, estamos na Polônia, e esse Hitler não invadiria nosso país aqui.
— A Polônia é fraca com relação a exércitos, Adele. Ele vai invadir o mundo todo, e vai começar por aqui. Já lhe disse isso mil vezes. Nós vamos nos mudar e ponto final. É isso ou a morte!
— Ah, ótimo, vamos fugir como ratos! Você pelo menos sabe para onde ir? E como chegar lá?!
— Já falei sobre aquele contrabandista que vive em Varsóvia, Adele, não se faça de desentendida. Ele pode nos ajudar a fugir do país, e vamos para um lugar seguro, como os Estados Unidos.
— Então é isso?! Vamos nos mudar?! Pense no meu emprego, Aaron, na vida das crianças aqui! Não vou ser capaz de jogar tudo isso fora por causa de tal suposição que o chanceler da Alemanha vai invadir a Polônia!
— Adele, e se invadir? E isso está claro q vai acontecer. Não sabemos do que esse homem é capaz!
Eu e Benjamin estávamos ficando eufóricos. A única parte que entendemos dessa discussão foi que precisávamos nos mudar para outro lugar.
— Adele, estamos correndo muito perigo! Precisamos nos mexer... —  Meu pai foi interrompido pelo barulho do meu joelho se batendo contra a porta, acidentalmente. — Espere... Parece que tem alguém na porta...
Ao ouvir a fala de meu pai, corremos de volta ao nosso quarto. Ouvimos, então, a porta do quarto deles se abrir, e alguém começou a caminhar em direção ao nosso.
— Caleb, Benjamin, o que estavam fazendo ouvindo atrás da porta?! — Falou nossa mãe, de braços cruzados. — Que falta de educação!
Porém, atrás dela, veio também nosso pai.
— Que bom que estavam ouvindo a discussão. Ben, Caleb, precisamos falar sobre a nossa mudança.
— Aaron, nós ainda não decidimos isso!
— Então a gente vai se mudar? — Perguntou Benjamin.
— Ben, tem um cara muito mau que está prestes a invadir nosso país. — Falou meu pai, cruzando os braços, como se quisesse dizer aquilo mais para minha mãe do que para nós.  — Precisamos ir embora daqui antes que isso aconteça. E eu conheço um homem que pode nos ajudar com isso.
Adele começou a ficar nervosa.
— Não fale como se quisesse colocar as crianças contra mim, Aaron! É muito cedo para decidir isso!
Minha mãe saiu do quarto, nervosa. Meu pai foi atrás dela.
— Ben, Caleb, não fiquem ouvindo atrás da porta de novo. — E saiu.
Eu e Benjamin ficamos sem muitas palavras.
— Seja lá o que eles quiserem — pronunciou Benjamin —, eu não quero me mudar daqui.
— Nem eu.

Benjamin e eu passamos as próximas semanas sem muitas notícias se íamos realmente nos mudar. E os próximos meses também. Tudo o que sabíamos era que nossos pais continuavam a discutir, entretanto de forma cada vez mais branda. Já até tínhamos esquecido essa história sobre a mudança, até que, já no ano seguinte, no começo do verão de 1939, Aaron retomou esse assunto.
Era quase noite, e nossa mãe havia acabado de preparar seu tradicional prato, Pierogi. Ela, meu irmão e eu já estávamos na mesa, porém meu pai continuava em seu escritório.
— Aaron! — Gritou minha mãe. — Pela terceira vez, o jantar já está na mesa!
Dado por vencido, meu pai abriu a porta de sua sala particular e sentou-se conosco à mesa. Adele olhava para ele fixamente, com um ar de estressada, de modo como se esperasse que algo saísse de sua boca.
— Bom, já está na hora de vocês saberem, crianças — finalmente disse ele. —Vocês se lembram daquela conversa que eu e a mãe de vocês estávamos tendo ano passado, aquela que vocês ouviram de trás da porta?
Nós acenamos que sim.
— Pois bem. Nós realmente nos mudaremos. — Falou, com seu tom salpicado de drama. — Vamos sair da Polônia.
Benjamin e eu nos entreolhamos, já sabendo o que dizer.
— Mas a gente não quer se mudar daqui! — Falou meu irmão.
— Essa casa é legal, e a gente tem vários amigos na rua. — Disse eu.
Meus pais entreolharam-se como se estivessem conversando telepaticamente.
— Crianças, nós não estamos pedindo opinião — retrucou minha mãe.
— Sim — arriscou meu pai. — Pensei bastante sobre isso e...
— Nós, Aaron, nós pensamos na mudança e chegamos nessa conclusão — interrompeu. — Vamos nos mudar no fim do verão.
— Mas mãe!
— Sem mais. Acabem de comer e já vão começar a arrumar suas coisas, pra não deixar tudo para última hora.
E então nos demos por vencidos; sabíamos que com nossa mãe não se tinha muita conversa.
Na verdade, demoramos alguns dias mais para começar a fazer as malas, e ela nos ajudou a empacotar as coisas. Quanto mais guardávamos roupas e brinquedos, mais eles apareciam no armário; era um ciclo sem fim. Mudanças não são fáceis, principalmente aquelas que devem ser feitas às pressas.
Já estávamos no último dia de agosto quando Aaron chegou em casa com bilhetes de trem para Varsóvia. Quatro, no total. Ele disse que a viagem seria aquela noite, portanto já deveríamos começar a nos aprontar para sair.
Todas as malas enfim prontas, todas as lembranças daquela residência enfiadas dentro de uma caixa de lona com rodinhas. Já fora da casa, olhei para trás e contemplei o lugar onde havia sido criado até então, sentindo um aperto por estar, grosso modo, deixando aquele lugar no passado.
Um carro emprestado nos levou até a estação de trem de Białystok. Podendo contemplar o horizonte apenas da janela, fomos nos despedindo de cada esquina, de cada casa, de cada jardim. Benjamin e eu conseguimos ver alguns de nossos amigos pelas ruas, brincando, mas passamos rápido demais para sermos notados. Já havíamos-lhes notificado da nossa partida, e tínhamos feito as devidas despedidas.
A estação não era muito grande, nem coberta. Porém, estava bem movimentada no dia. Muitos estavam com pressa. Por termos chegado cedo, tivemos que esperar quase uma hora pela chegada do trem. Uma fila foi feita para entrar no vagão 6, fila a qual andou rápido, e logo entramos. O trem estava abafado por ser uma típica tarde de verão.
Assistimos da janela a cidade ficando para trás; tudo o que eu conhecia e tudo o que eu havia vivido estava perdendo-se em meio ao horizonte. Mal sabíamos nós que aquela viagem mudaria o rumo de nossas vidas para sempre.

Por: Vitor Rodriguez Perencine


1

— Aaron, já está na hora!
Adele Wensel sentia as primeiras contrações. Tinha tirado folga do hospital onde trabalhava como médica, pois não estava se sentindo nada bem. A barriga que estava carregando já havia nove meses uma hora ou outra se esvaziaria.
— Vamos, Adele, entre no carro!
Aaron Wensel dirigiu o mais rápido que pôde. Porém, os carros da década de 30 não colaboravam muito.
Chegaram ao centro cirúrgico a tempo de Adele se tornar mãe. E não mãe de um filho único; a vida lhe presenteou logo com dois bebês. Irmãos gêmeos, inocentes crianças que vieram ao mundo em seis de janeiro de 1933.
E é aí que começa minha história. Eu, Benjamin Wensel, e meu irmão, Caleb Wensel, viemos ao mundo como filhos de uma médica e de um professor de literatura estrangeira. Meus pais, pelo o que me contaram anos mais tarde, estavam com um tremendo frio naquele seis de janeiro. Um terrível inverno assolava a pacata cidade polonesa de Białystok, cujo cenário estava repleto de neve; a neve que caía, branca e inocente, alheia a tudo e todos. Enquanto as ruas enterravam a pouca vida a crescer embaixo da neve, dentro do hospital de Białystok ela florescia como nunca.
— Esse será Benjamin. — Pronunciou Adele. — O mais novo.
— Quatro minutos mais novo, não é?
— Sim, querido. E esse será o Caleb. Benjamin e Caleb Wensel, nossos gêmeos. Białystok nunca viu garotos tão lindos!

Meus pais, entretanto, não contavam com uma desventura. Alguns dias depois, em 30 de janeiro, a Alemanha assistiu a ascensão de um novo chanceler: Adolf Hitler. Meu pai, um renomado professor de literatura estrangeira no mundo acadêmico e fluente em alemão, teve acesso ao livro que estava sendo largamente lido pelo mundo. Escrito pelo então chanceler alemão, Mein Kampf expunha a sua vida e a sua visão com relação à superioridade das raças, as quais até não eram problema para ninguém.
Até então.
A verdade é que, mesmo não sendo praticantes, éramos uma família judia. Acho que meu pai se preocupava demais com isso; cresci o vendo tenso com alguma coisa que na época era incapaz de enxergar. Todas as noites, antes de eu e Benjamin dormirmos, ele chegava a nosso quarto, nos abraçava e dizia que nos amava, e, de um modo que quase beirava o desespero, prometia que faria qualquer coisa pela nossa família.
E o ritual se repetia, dia após dia. Assim como o crescimento de número de vezes que meus pais trocavam olhares atravessados durante as refeições, como se estivessem esperando acontecer alguma coisa que estava por vir.
Eu e Benjamin, entretanto, éramos alheios a tudo isso. Assim como a neve, branca e reluzente, ousando cair quase todos os dias de inverno. Indiferente, atrevida. Afinal, éramos apenas crianças que queriam brincar e ter uma vida normal, e apenas crianças não seriam capazes de compreender o que estava por vir. O que já estava vindo, na verdade. Lembro um dia de verão que não pudemos mais visitar o parque da cidade. Minha mãe, sempre tentando parecer forte, dizia que aquele lugar não era mais coisa para nós; mas Caleb, que com quase cinco anos já sabia ler, me contou que viu no jornal, o qual nosso pai comprava todo santo dia, uma manchete que dizia algo como “Judeus estão proibidos de frequentar locais públicos”. Tudo era muito estranho.
O ano de 1938 havia chegado, trazendo muito frio e novidades não muito boas. Meu pai parecia mais preocupado do que jamais esteve. Estava sempre correndo de um lado para outro, como se estivesse planejando alguma coisa, arquitetando um plano; e nem mesmo minha mãe o entendia mais.
A arapuca nazista estava montada.

Por: Vitor Rodriguez Perencine